TDAH: o mesmo diagnóstico pode apresentar diferentes perfis cerebrais

QEEG no TDAH: diferentes perfis cerebrais no mesmo diagnóstico

O TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) é um transtorno complexo e heterogêneo. Isso significa que duas pessoas podem receber o mesmo diagnóstico e, ainda assim, apresentar sintomas, características cognitivas e padrões de funcionamento neurofisiológico bastante diferentes.

Um estudo publicado em 2026 investigou essa questão, utilizando EEG quantitativo (QEEG) em adultos com TDAH, comparando participantes com TDAH sem depressão e participantes com TDAH associado à depressão.

Os resultados chamam atenção para a importância de compreender o TDAH para além do diagnóstico clínico.

Estudo avaliou adultos com TDAH

A pesquisa de Kim et al. (2026) avaliou 45 adultos, divididos em dois grupos:

  • 21 adultos com TDAH sem depressão;
  • 24 adultos com TDAH e depressão.

Os pesquisadores utilizaram o EEG quantitativo (QEEG) para investigar diferenças na atividade elétrica cerebral entre os grupos.

Um dos principais achados foi uma diferença significativa na assimetria da atividade delta entre F7 e F8, regiões localizadas na porção frontal lateral do cérebro.

Esse resultado é relevante porque sugere que a presença de uma condição associada, como a depressão, pode estar relacionada a diferenças no funcionamento neurofisiológico observado em pessoas que apresentam o mesmo diagnóstico de TDAH.

O que isso significa na prática?

O achado não significa que exista um único “cérebro do TDAH” ou que o QEEG consiga identificar sozinho quem tem TDAH ou depressão.

Na realidade, ele reforça uma característica conhecida do transtorno: o TDAH é heterogêneo.

Diferentes pessoas podem apresentar combinações distintas de dificuldades relacionadas à atenção, controle inibitório, impulsividade, regulação emocional, motivação, memória de trabalho e funcionamento executivo.

Além disso, condições que podem ocorrer simultaneamente ao TDAH podem modificar a apresentação clínica e o funcionamento neurofisiológico observado.

Por isso, olhar apenas para o diagnóstico pode ser insuficiente para compreender completamente cada indivíduo.

QEEG no TDAH: uma ferramenta complementar

O QEEG no TDAH pode contribuir para a investigação de padrões de atividade elétrica cerebral, especialmente quando seus resultados são analisados em conjunto com outras informações clínicas.

Entretanto, é importante estabelecer uma diferença fundamental:

QEEG não deve ser utilizado isoladamente para diagnosticar TDAH.

O diagnóstico continua sendo essencialmente clínico, baseado na avaliação dos sintomas, história do desenvolvimento, funcionamento atual e prejuízos observados em diferentes contextos.

O QEEG pode fornecer informações neurofisiológicas complementares, mas seus resultados precisam ser interpretados dentro de uma avaliação mais ampla.

Diagnóstico não significa funcionamento cerebral idêntico

Uma das implicações mais interessantes desse tipo de pesquisa é justamente a possibilidade de compreender que um mesmo diagnóstico pode envolver diferentes organizações funcionais.

Imagine duas pessoas com TDAH.

Ambas podem apresentar dificuldades de atenção, mas uma pode ter como característica predominante a impulsividade, enquanto outra pode apresentar maior lentificação, dificuldade de iniciar tarefas ou problemas importantes de memória de trabalho.

Quando existe ainda uma condição associada, como depressão, ansiedade ou alterações do sono, a apresentação clínica pode se tornar ainda mais complexa.

É nesse contexto que surge o interesse crescente por abordagens individualizadas e pela chamada psiquiatria de precisão.

O futuro: compreender o indivíduo além do diagnóstico

A ideia de uma abordagem mais individualizada não significa substituir o diagnóstico clínico por exames cerebrais.

Significa utilizar diferentes fontes de informação para compreender melhor como determinado indivíduo funciona.

Nesse contexto, informações provenientes da entrevista clínica, avaliação psicológica, avaliação neuropsicológica, histórico individual e, quando indicado, exames como o EEG/QEEG podem ser integradas para construir uma compreensão mais ampla do caso.

Essa perspectiva é particularmente importante em condições complexas e heterogêneas como o TDAH.

Em resumo

O estudo de Kim et al. (2026) acrescenta evidências de que adultos com TDAH podem apresentar diferenças neurofisiológicas quando o transtorno ocorre isoladamente ou associado à depressão.

A diferença observada na assimetria da atividade delta entre F7 e F8 reforça a necessidade de investigar o funcionamento de cada pessoa de maneira individualizada.

O principal ponto, portanto, não é procurar um “padrão cerebral único do TDAH”, mas compreender que pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar diferentes perfis neurofuncionais e clínicos.

O QEEG pode ser uma ferramenta complementar nesse processo, desde que seus resultados sejam interpretados com cautela e integrados à avaliação clínica.

Diagnóstico é o ponto de partida. Compreender o indivíduo é o passo seguinte.

Referência

Kim et al. (2026). Clinical Psychopharmacology and Neuroscience.

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